A vida digital, a ética e a cegueira moral

autor: Elaine de Sousa | 18 de agosto de 2016

Cara a cara ou atrás de telas tecnológicas, nossas atitudes ajudam a construir uma reputação e, quando expostas em redes sociais, são perpetuadas num rastro online. A conduta ética dentro e fora da teia é a única forma de evitar exposições negativas e gafes que viralizam.

Olá galera seguidora do Blogando!
Embora ainda resista um pouco para usar determinadas novidades analisadas pelos feras digitais que passam por aqui, eu também faço parte desse time. Transito entre as chamadas gerações X e Y (ou Millennials) e juro que me esforço um montão para estar por dentro de tudo o que a Tecnologia Digital disponibiliza para que pessoas físicas e jurídicas ganhem em relação às suas imagens, conquistando prestígio e, especialmente, boa reputação – dentro e fora da “teia”.  Por isso, minha intenção aqui é falar um pouco de tudo que se relaciona às intensas conexões estéticas e comportamentais promovidas nas redes sociais – mas também fora delas. Isso porque, como assessora de comunicação, acredito que nenhuma imagem se sustenta sem um bom conteúdo. E isso tem a ver com a maneira como pessoas (físicas e jurídicas) agem na vida (online e offline). Tem a ver com o que eu faço num “ao vivo no Facebook” e na sombra de uma esquina qualquer ao ser abordada por um morador de rua. Enfim, nesse meu “cantinho” mensal quero transitar entre o digital e o analógico, propondo reflexões sobre construção e consolidação de imagem e formas de “aparecer” mais e melhor, sem atropelos e amadorismos.
Nessa estreia, vou perambular por termos como imagem, ética e reputação (com foco nas redes sociais).
Ao falar de imagem, aqui, penso em diferentes situações: na imagem que cada um tem de si (e nas vertentes: como eu me vejo, como eu penso que os outros me vêem, como eu quero que me vejam e como de fato me vêem) e na imagem que, como profissionais, podemos construir do outro (pessoa físíca ou jurídica, que, em geral, tem um plano de marketing para se lançar ao público, expressando sua marca dessa ou daquela maneira). Em tese, o que se busca com exposições públicas é sucesso e prestígio. Até aí, tranquilo, né?
E quando falo em reputação, penso nas consequências de atos e discursos severamente analisados pela opinião pública. Afinal, que reputação estamos construindo e perpetuando no chamado rastro online – deixado diariamente por nossas postagens e aparições na Internet?

Reputação X cegueira moral
Um exemplo bem simples de reputação é observado em sites de vendas, como o OLX e Mercado Livre, que publicam uma avaliação do vendedor dando estrelas para medir sua reputação. Nesse caso, o site analisa como ele trabalha: se entrega os produtos no prazo, se responde às indagações dos clientes com rapidez e eficácia, se o que ele fala do produto corresponde à realidade etc. Ou seja: medem questões subjetivas relativas ao caráter do vendedor na interação com seus clientes numa mídia social (o site de vendas). Mas e quando o caráter em questão é o nosso? Bom, analisemos: um trabalhador apresenta atestados médicos para faltar ao emprego, mas no mesmo período faz postagens no Facebook de idas a festas e passeios. A atitude gerou demissão e viralizou na Internet. Aí eu lhe pergunto: o problema é ele postar isso ou agir assim?
Ao gerenciar conteúdos em mídias sociais, desde 2008, reconheço que esse universo de vida online vem causando o que o sociólogo polonês Zigmunt Bauman chama de “Cegueira Moral” (título de um de seus livros, lançado em 2014 pela Editora Zahar, em que dialoga com o filósofo Leonidas Donskis sobre a falta de sensibilidade dos homens modernos em meio às dores e dissabores dos seus semelhantes). “O mal não está restrito às guerras ou às circunstâncias nas quais pessoas atuam sob condições de coerção extrema. Hoje ele se revela com frequência na insensibilidade diária diante do sofrimento do outro, na incapacidade ou recusa de compreendê-lo e no desejo de controlar a privacidade alheia. A maldade e a miopia ética se ocultam naquilo que consideramos comum e banal na vida cotidiana. Em um mundo em que se você não está nas redes sociais, não está em lugar nenhum, novas formas de censura correm soltas nas demonstrações de ódio via internet. E esse é apenas um dos sintomas dessa cegueira moral que caracteriza nossas sociedades.”
José Saramago já dizia algo semelhante em seu “Ensaio sobre a cegueira” (livro de 1995, Companhia das Letras):
“O olhar é a capacidade de ver e de reparar os males da convivência humana nas sociedades”. Com a cegueira de suas personagens, Saramago já fazia uma analogia do quanto as pessoas têm agido como cegas no mundo contemporâneo.
De fato, é como se ocorresse uma reconfiguração cerebral e todos que “passeiam pelas redes sociais” perdessem um pouco a noção ao se expor e ao expor o outro. Estimulados por uma avalanche de informações; influenciados a clicar sem moderação e a lançar olhos e coração sobre telas extraordinárias, navegando entre realidade e fantasia; com perfis reais ou fakes; com a possibilidade sensacional de aparecer online quando é conveniente e de se mostrar offline quando assim nos for melhor – inclusive cometendo suicídios online e deletando tudo o que não nos serve mais; estaríamos, em certa medida, perdendo a sensibilidade de nos colocar no lugar do outro. A tão famosa empatia.

Postura ética nas redes
Tenho falado sobre isso em palestras a partir do olhar para a ética e a nossa presença nas redes sociais. Desde 2015, já foram mais de trinta encontros. Em todos eles percebo pessoas boquiabertas quando se dão conta de que, sim,  deslizam e agem como não gostariam que agissem com elas. Mas fazem isso sem uma percepção clara dos fatos. A cegueira moral explica. Por trás das telas (das menores às maiores; das lentas às que trabalham em velocidade olímpica à la Usain Bolt), temos uma sensação de impunidade. Como se nossa identidade estivesse preservada e à prova de qualquer postagem equivocada, maldosa, preconceituosa ou discriminatória. A isso, soma-se a vaidade e o egocentrismo. Afinal, de uma hora para a outra temos a possibilidade, por exemplo, de estar ao vivo para 300 pessoas ou para milhares delas. O que eu vou fazer para ser o cara? O que sou capaz de fazer para ter milhões de fãs, amigos, seguidores? Para ganhar centenas de curtidas? Lamber a comida da rede de fast food onde trabalha e mostrar aos amigos? Ou quem sabe transformar uma pilha de pães do seu trabalho em um aconchegante colchão? (foto)

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Na novela global das sete, escrita por Daniel Ortiz, a it-girl Fedora Abdala, vivida por Tatá Werneck, levou dezenas de moradores de rua para um churrasco na mansão de sua família e postou muitos vídeos exibindo sua “boa ação”. Sem detalhar a discriminação social da história e o quão ridículas foram as cenas, salta aos olhos a cegueira moral demonstrada pela personagem. Focada em seu umbigo e na busca pelo status de “celebridade digital”, ela não mediu seus atos nem se mostrou preocupada com o tipo de reputação que estava construindo a seu respeito. O que importavam eram os números de seguidores e de curtidas. A que preço? Não importa!

Assim fazem políticos, personalidades e também anônimos, muitas vezes implicando outras pessoas em suas manifestações vexatórias, que cultuam falta de educação, violência e preconceitos de todos os tipos, sem nenhuma demonstração de consciência, bom senso e ética.
O que falar, por exemplo, de um piloto que ofendeu toda a população nordestina numa postagem preconceituosa e absurda?
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O fato é que falar de ética hoje em dia parece até fora de moda. Ou algo muito filosófico e distante de nosso mundinho. #sqn.
Mas garanto que o conceito de ética tem um sentido prático e muito próximo de todos nós. Tem a ver com tudo o que nos foi ensinado, com o que absorvemos sobre caráter, postura perante o mundo, respeito à nós e aos outros. Tem a ver com os princípios que nossos pais, avós e professores nos ensinaram com palavras e principalmente com atitudes. Qual  modelo ético nos foi incutido? Sabe aquela história de princípios e valores? Quais os seus? Quais os da empresa cujo conteúdo você gerencia nas redes?
Já deixou de curtir, por exemplo, uma empresa porque você não queria a sua imagem atrelada a uma pessoa (jurídica, no caso) que contrata mão de obra infantil? Isso tem a ver com princípios éticos.
Já recusou um trabalho porque você não gostou quando o entrevistador reparou na sua bermuda? Isso tem a ver com os seus valores e visão de mundo.
É disso que estou falando. Hoje, há uma tendência a restringir o Brasil a políticos corruptos, cidadãos racistas, machistas, sexistas, enfim, a um mar de gente desalmada e antiética.  Mas, acredite, há muita gente ética entre nós. Há muita gente que age com base nos seus princípios mais primários, aqueles apreendidos lá atrás, desde a primeira infância. E pessoas assim, independentemente da plataforma que usam – um blog ou uma mesa de bar -, sabem interagir sem perder de vista a importância de exercitar  o tão necessário “colocar-se no lugar do outro”, além de temperos mágicos para se viver em sociedade: gentileza, empatia, visão sistêmica e respeito à diversidade.

Esse post me representa?
Colocar-se no lugar do outro também é um exercício relevante para quem quer trabalhar com produção e curadoria de conteúdo nas redes sociais para evitar excessos e conflitos – tanto do ponto de vista ético como da coerência com o discurso e a imagem do cliente. Vejo muita gente querendo entrar nessa área, mas sem noção alguma de como fazer isso de forma planejada, estratégica e alinhada aos princípios do cliente. Todo mundo já sabe que, nas redes, há uma exigência cada vez maior para interações pessoais e humanizadas (aliás, o conceito de redes sociais sempre foi este: contatos humanos; pessoas interagindo, expondo ideias e trocando informações e impressões)…  Mas, antes de propor um projeto com posts fofos ou engraçadinhos (às vezes, desconectados da verdade do cliente), quem se aventura a trabalhar nessa área deve conversar muito com o seu contratante para saber se o conteúdo gerado é fiel à realidade daquela empresa ou artista ou político, seja lá quem for.
Em Assessoria de Comunicação fazemos o chamado Diagnóstico de Pontencial de Comunicação. Nele, investigamos tudo o que é possível sobre a empresa e seus dirigentes (visão, missão, valores, posições, com quem mantém parcerias, etc.). Imagens falsas não se sustentam por muito tempo. E se iniciamos um trabalho de construção de imagem sem embasamentos sólidos, um dia esse cliente pode participar de um programa de entrevista e, com certeza, vai se entregar. Seu conteúdo ou a falta dele serão expostos – com muitos tiros no pé.
Por isso, antes de começar qualquer trabalho de produção de conteúdo nas redes sociais, identifique qual a missão da empresa na vida real e naquela rede social. Quais valores ela defende? O que ela “pensa”?
Independentemente do segmento da empresa, hoje é importante saber o posicionamento político de seus gestores e o que pensam sobre grandes temas sociais. Isso tudo é muito relevante para quem vai produzir conteúdo e fazer sua curadoria. Afinal, se escrever sobre quem não conhece, fará ficção. E as chances disso dar errado são muito grandes. Ao contrário, com um diagnóstico bem-feito, você poderá criar um plano de trabalho consciente e realista.
Por outro lado, mesmo com uma estratégia definida, você precisa estar atento para não transmitir ideias e pensamentos que comprometam o cliente. É preciso estar antenado e ser muito cuidadoso, já que um simples post pode ser interpretado de diversas maneiras e gerar conflitos e prejuízos inimagináveis à imagem do cliente. Em tempos de Fla-Flu é preciso atenção redobrada.
Agora,  caso você perceba que o contratante está na contramão do mundo sendo racista, preconceituoso, antiético… Bem, o melhor a fazer é desaconselhar sua presença nas redes e cair fora! Caso contrário, é a sua reputação profissional que ficará em risco.

Escreva, comente e até a próxima!

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Elaine de Sousa

Elaine de Sousa

Apaixonada por café, Literatura, Internet e animais, Elaine de Sousa é jornalista, pós-graduada em Linguagem, Cultura e Mídia pela Unesp e trabalha com Assessoria de Comunicação e Imprensa. É fundadora da Casa Midiática, por onde oferece consultoria em mídias sociais e ministra cursos e oficinas de Media Training, Assessoria de Imprensa e Redação e estilo.

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